Como se vestisse uma roupa desconfortável, pela sensação de falta de ar e espaço exíguo, na investigação mais atenta dela mesma a Nega suspeitou que se ocupava de um terceiro ser de presença espectral: Lilu havia levado ali pra dentro alguém que era sua constante passageira.
O acesso aos sentimentos de Lilu não fez bem à Nega, fez desmoronar castelos de sonhos. A experiência antropofágica não tinha o intuito de ser invasiva, nada a ver com vasculhar impunemente uma caixa de emails alheio ou sorrateiramente roubar um diário de cabeceira para ler no banheiro e devolver em seguida. O que a Nega queria era procurar razões dentro de si para libertar Lilu daquele amor sem apreciação que ela ainda cultivava. E pagou caro pela brincadeira de escafandrista, porque reconheceu que a ficção era também a matéria-prima daquele contato livre, misterioso e aberto, mas limitado em seu espaço e tempo. Como um segundo cristalizado.*
* fragmento do conto Sem Palavras.
* fragmento do conto Sem Palavras.
Lilu nunca mentiu pra Nega. Para isso, se enganava.
Emular Lilu enquanto se dedicava a Nina não era o que a Nega classificava como terrível. O que doeu foi o inevitável redimensionamento do romance vivido a partir do momento em que se enxerga pelo prisma do outro, que se sente pelo coração do outro.
E a Nega teve uma visão redutiva de tudo, sem revolta, compreensiva de Lilu em seu projeto de saída enquanto estudava a entrada. Havia de se considerar o sexo inesquecível, o envolvimento involuntário, a intensidade plastificada com prazo de validade, uma dedicação inquestionável, durante escrotas férias conjugais. Assim, num misto de generosidade e desilusão, reconheceu os esforços da flor de cajueiro em conduzir a desconexão com carinho, no entanto, tudo aquilo seria insustentável se não tivesse sido realmente amada.
Nesse dia, sentiu-se livre para chamar Nina de meu bem. No trato da nova paixão, não deveria haver conflitos entre o autêntico e a cópia. Os valores já eram outros.
O silêncio da Nega não significava ausência de palavras, nunca significou. Naqueles dias em que compartilhava grandes mistérios simplesmente calou-se. Porque decifrar Lilu era como se afastar da beleza, privar-se das cores, se abandonar, descobrir algo terrível.
Ser Nega e ser Lilu colocava em questão o que a paixão considerou inquestionável no momento em que elas estiveram próximas demais, mas não uma dentro da outra.
Incerteza sobre território e limite deve ser natural para aqueles que ocupam um só corpo, mas a Nega contaminada por Lilu observou-se emulando sua amada na relação com Nina, sua nova amada.


