Catuaba │ Rico Lopes (GO)

terça-feira, maio 16, 2017


Zumbido, é Domingo de Páscoa e estou só! Não faço questão da companhia nem dos coelhos nem do cordeiro. Ruído contínuo, desidratação aguda, ninguém passa ileso a um porre, eu beberia um açude, me dou conta que não estou tão só quando me lembro que divido um quarto com mais nove pessoas, me lembro que estou num Hostel, me lembro que o café já está sendo servido, finjo que não me lembro da noite de ontem.  Eu observei em flashes a escuridão se dissipar enquanto eu mal dormia. Cochilei, e um hóspede novo, cochilei, e alguém tomava banho às 3:49 da manhã, cochilei, e o norueguês roncava, não cochilei, e o pé de um hóspede não identificado me assombrava, cochilei, acordei e não mais dormi quando me lembrei do fulgor dos seus olhos.

É que os melhores venenos são destilados por lábios vermelhos, o problema é que eu já não mais lembrava se o rubor estava na minha ou na sua boca.  Oh, my God, I feel it in the air, e foi ali mesmo, uma linha reta suspensa no ar ligando dois pontos inflamados, telephone wires above are sizzling like a snare, aquele chiado que anuncia a beleza escondida em encontros ao acaso, pieguice de merda, era óbvio, com uma laje tão pequena como aquela, cedo ou tarde nossos olhos dariam as mãos, honey I’m on fire, I feel it everywhere, e o curto circuito se cumpriria preciso como de fato se anunciou, faíscas pra lá e pra cá, porque nos balançávamos debaixo de uma lua nova, quase cheia, talvez, porque dois lábios descascados se tocando dão nisso, porque a batida insistente do remix em cima daquela música lenta e melancólica queria dizer isso, fogo, nothing scares me anymore.

Toda morte antevê um êxtase!
E aquele beijo antes de partir, me serviu de presságio:
há tristeza também durante veraneios.

Estou de novo no quarto, você virou uma série de números anotados de forma torta, por uma mão trêmula, no meu antebraço esquerdo, já se apagando, mal dá pra discernir, e se esse 9 era um 8? Eu acabo de lavar o que restou de você, um borrão no braço, um borrão na memória, uma luz piscando no poste dum beco até não mais acender. Sigo pra o café, não te encontrarei entre os demais hóspedes, você não fez check-in, só veio para o esquenta, mal lembro da forma esquisita como pronunciaram teu nome, ou mesmo de alguma letra dele, ou se você sequer chegou a ter um nome… ainda é Domingo de Páscoa, continuo só, zumbido!

Foto: Rico Lopes



Rico Lopes está sempre de passagem porque vive viajando, pra dentro. É vegetariano não-praticante, astrólogo de mesa de bar e contador das histórias que ouve naquelas viagens. Publicou contos na antologia As dores de Josefa (Selo Naduk - Nega Lilu Editora). Integra o Coletivo e/ou e a diretoria da Casa da Cultura Digital.

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